segunda-feira, 4 de abril de 2016

Transtorno não verbal

Psicopedagogia

Transtorno não Verbal

TANV é um dos problemas que mais têm mobilizado educadores, pois se trata de uma desordem neurológica profunda, crônica, causada por disfunções cerebrais, que provocam déficits significativos

por Maria Irene Maluf



Crianças com transtornos de aprendizagem requerem especial atenção de seus professores durante a maior parte do seu percurso escolar.

Com a implantação da inclusão em nosso sistema de ensino, criou-se a necessidade de preparar (e rapidamente) os professores para atenderem às necessidades educativas especiais de seus alunos, já que uma parcela considerável desses profissionais não possuía (e parte ainda não possui), uma especialização acadêmica ou experiência que lhes ofereça condições para trabalhar com tal leque de desafios.

Entre os transtornos que hoje mais têm mobilizado a atenção dos educadores, está o Transtorno de Aprendizagem Não Verbal, o TANV, uma desordem neurológica profunda, crônica e que resulta em déficits significativos nos domínios cognitivo, social, emocional, psicomotor, espacial, tátil e visual , com grandes repercussões na aprendizagem e características que o tornam peculiarmente complexo no seu diagnóstico e intervenção. Segundo Rourke (1995) e Togenson (1993), esse transtorno atinge 1 em cada 10 crianças com problemas de aprendizagem ou 1% da população geral (Pennington, 1991).

Identificado por volta de 1960 por Jonhson & Myklebust, o TANV recebeu em 1970 de Byron Rourke a denominação atual. Seu reconhecimento tem sido lento devido à baixa incidência entre a população infantil, mas assim como o autismo, esse transtorno vem sendo mais estudado e identificado na atualidade, à medida em que os seus portadores passaram a frequentar as escolas regulares em maior número.

Ao contrário do que sugere seu nome, a compreensão da criança praticamente se restringe às atividades que se baseiam no domínio verbal, ainda que muitas vezes interprete erroneamente o que lhe é dito. Trata-se de uma síndrome na qual coexistem limitações funcionais e seus portadores necessitarão do apoio de uma equipe multidisciplinar para os atender nas suas diversas necessidades, que, inclusive, vão se alterar ao longo de suas etapas de desenvolvimento.

A sociedade tende a valorizar a capacidade mais expressiva de comunicação verbal das crianças, como um sinal de inteligência. Mas, no caso dos portadores de TANV, que nos anos iniciais da escolaridade se mostram precocemente desenvolvidos nesse quesito, tal competência de linguagem, característica do transtorno, deve ser antes compreendida como uma compensação de seus importantes déficits em outras áreas. Por outro lado, se aprendem a ler muito cedo é devido a sua facilidade de descodificação, uma habilidade relacionada ao hemisfério esquerdo do cérebro.

AO CONTRÁRIO DO QUE SUGERE O NOME, A COMPREENSÃO DA CRIANÇA PRATICAMENTE SE RESTRINGE ÀS ATIVIDADES QUE SE BASEIAM NO DOMÍNIO VERBAL, AINDA QUE, MUITAS VEZES, INTERPRETE ERRONEAMENTE O QUE LHE É DITO

Mas, em relação à compreensão da leitura, começam os problemas, já que esta exige uma interação individual com a linguagem escrita que envolve, além da compreensão do vocabulário e da ideia principal contida no texto, a identificação da informação relevante em oposição à irrelevante, assim como outros fatores que tornam essa habilidade mais difícil, especialmente para a criança com TANV, pois a compreensão da leitura é uma atividade do hemisfério direito e do cérebro no seu todo – áreas em que o portador desse transtorno apresenta déficits.

Em relação ao domínio cognitivo, a criança com TANV não demonstra desempenho apropriado à sua idade cronológica, em relação principalmente ao desenvolvimento da função executiva. Frequentemente mostra dificuldade para generalizar informações e, portanto, para aplicar conhecimentos anteriormente aprendidos a novas situações, revelando pouca flexibilidade mental diante de ideias novas. Socialmente, tem reduzida capacidade para interagir diante das normas sociais estabelecidas, assim como a se ajustar a uma nova ordenação.
Trabalhar com crianças e jovens com TANV, exige conhecer alguns princípios básicos:

• A sua aprendizagem exige instrução explícita e prática exaustiva. Vale atentar ao fato de que a linguagem oral bem desenvolvida não garante a capacidade de resolução de problemas e de formação de conceitos abstratos;

• Deve-se ensinar estratégias similares àquelas que seriam empregadas efetivamente em crianças muito mais novas e passo a passo, para lidar com situações problemáticas que ocorrem diariamente;

• Aprimorar as habilidades visioespaciais, visuocontrutivas e analíticas;

• Procurar desenvolver a compreensão do comportamento não verbal alheio;

• Acompanhar a criança em situações pouco estruturadas mesmo em brincadeiras com outras crianças, quando ainda não estiver preparada e procurar trabalhar conjuntamente outros aspectos como, por exemplo, a coordenação motora;

• Permitir e incentivar o uso de suportes adequados a idade como calculadora, relógio digital, computadores, etc.

Ajudar crianças e adolescentes com TANV a reconhecer suas capacidades e habilidades para que aprendam a usar estratégias apropriadas, desenvolvam boa auto-estima e se tornem autônomos é o que se espera da família, da escola e de todos os profissionais que trabalham com seus portadores. Para isso, não basta boa vontade: o conhecimento científico do Transtorno é imprescindível, como aliás o é, em todos os Transtornos de Aprendizagem.